Reportagem especial – agosto de 2026
Locação de equipamentos de TI: o mercado bilionário que está mudando a forma como as empresas se equipam
Comprar ou alugar?
Essa pergunta, que já foi natural apenas para carros e imóveis, tornou-se central na estratégia de tecnologia das empresas brasileiras.
Enquanto o país amplia investimentos em infraestrutura digital, um número crescente de organizações está trocando a compra de computadores, servidores e notebooks pela locação e os números comprovam que essa não é mais uma tendência de nicho.
Um mercado que já movimenta dezenas de bilhões de reais
Segundo o Rental Market Report 2025 Brasil, elaborado pela consultoria KPMG a pedido da Analoc (Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas), o setor de locação de equipamentos no Brasil movimentou R$ 49,4 bilhões em 2025, reunindo cerca de 50 mil empresas e gerando mais de 200 mil empregos diretos no país.
A projeção para 2026 é de faturamento de R$ 52,9 bilhões, um crescimento de 7%, com nova alta esperada para R$ 56,7 bilhões em 2027.
Esse ritmo não é isolado. Nos últimos cinco anos, o setor de locação como um todo cresceu, em média, 10% ao ano no Brasil. Gestores do setor associam essa mudança a uma transformação de mentalidade: em vez de tratar a aquisição de máquinas como caminho natural, as empresas passaram a avaliar prazo, custo de manutenção, disponibilidade e uso real do equipamento antes de decidir comprar ou alugar.
No recorte específico de tecnologia da informação, o cenário é ainda mais expressivo. De acordo com a consultoria IDC, o mercado de tecnologia corporativa no Brasil deveria crescer 13% em 2025 frente a 2024, com gastos previstos acima de R$ 616 bilhões, o maior volume de investimento em TI da América Latina.
Entre os segmentos com maior projeção de expansão estão exatamente as soluções de infraestrutura interna, os modelos de locação (o chamado Device as a Service) e as práticas de sustentabilidade e ESG.
PCaaS: o modelo que deve dobrar em dois anos
Um dos indicadores mais citados por analistas é o avanço do PCaaS (PC as a Service), modelo em que notebooks e desktops são contratados como serviço, com manutenção, suporte e atualização incluídos na mensalidade. Levantamento da IDC aponta que o número de dispositivos operando nesse formato no Brasil deve praticamente dobrar entre 2024 e 2026, saltando de 350 mil para 640 mil equipamentos.
Vale destacar que essa expansão ocorre mesmo com o avanço da computação em nuvem: um levantamento da própria IDC mostra que 46% dos líderes de TI brasileiros afirmam que os investimentos em infraestrutura local também devem crescer, sinal de que nuvem e locação de hardware físico têm caminhado como estratégias complementares, e não concorrentes, dentro dos departamentos de tecnologia.
Ainda assim, a adesão ao modelo segue com espaço para crescer: dados da IDC Brasil, citados por veículos especializados do setor, indicam que apenas cerca de 10% das empresas brasileiras hoje locam seus equipamentos de TI — o que sugere um mercado com potencial de expansão significativo nos próximos anos.
O que a literatura sobre leasing e locação diz sobre as vantagens
Além dos dados de mercado, a própria literatura acadêmica brasileira sobre arrendamento mercantil (leasing) sustenta boa parte do racional financeiro por trás da decisão de alugar em vez de comprar. Estudos de caso sobre aplicabilidade do leasing empresarial, como o desenvolvido por pesquisadores da área contábil analisando uma indústria de grande porte, concluem que o uso adequado dos mecanismos de leasing operacional permite à empresa obter os recursos necessários para o ativo imobilizado sem comprometer o capital de giro, confirmando na prática o pressuposto teórico de que o leasing funciona como ferramenta de apoio ao investimento produtivo.
Entre as vantagens mais citadas tanto na literatura quanto em relatórios de mercado especializados estão:
- Redução do TCO (Custo Total de Propriedade): ao contratar a locação, a empresa incorpora ao contrato despesas que normalmente ficariam ocultas na compra direta, como obsolescência, manutenção e o custo financeiro do capital imobilizado, tornando o orçamento de TI mais previsível.
- Preservação de caixa e crédito: por não exigir desembolso integral no início do contrato, a locação libera capital de giro e linhas de crédito para outras prioridades do negócio, conforme apontado por relatório da IDC de 2025 patrocinado pela CSI Leasing sobre o crescimento dos gastos em leasing de TI.
- Transferência do risco de obsolescência: como o equipamento tecnológico se torna defasado rapidamente, contratos de locação, em geral renovados a cada dois ou três anos — evitam que a empresa arque sozinha com a perda de valor do ativo.
- Benefício fiscal: a locação é tratada como despesa operacional (OPEX), o que permite abatimento na base de cálculo de IRPJ e CSLL para empresas no regime de Lucro Real, além de possibilitar a recuperação de créditos tributários sobre a operação.
- Sustentabilidade e ESG: ao final do contrato, os equipamentos retornam ao locador, que assume a logística reversa — reuso, reforma ou descarte ambientalmente correto — reduzindo o volume de lixo eletrônico gerado pela empresa contratante.
Um exemplo numérico frequentemente citado por especialistas do setor ilustra bem o argumento financeiro: a compra de cinco computadores pode representar um desembolso único de cerca de R$ 20 mil, sem contar manutenção enquanto a locação do mesmo lote costuma girar em torno de R$ 750 mensais, já com suporte incluso, permitindo renovar o parque tecnológico ao final do contrato sem novo investimento de capital.
O pano de fundo: reforma tributária muda o cálculo, mas não a lógica
Vale um adendo importante para quem está avaliando esse modelo agora, em 2026: a Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 214/2025) está substituindo gradualmente ICMS, ISS, PIS e COFINS pelo novo IVA dual — IBS e CBS.
A locação de bens móveis, que hoje não é alcançada pelo ICMS, passará a integrar a base desses novos tributos a partir do período de transição, com alíquota-teste simbólica em 2026 (0,9% de CBS e 0,1% de IBS, integralmente compensável com PIS/COFINS) e plena vigência avançando entre 2027 e 2033. Na prática, o benefício fiscal da locação não desaparece ele se transforma, passando a depender cada vez mais do direito ao crédito não cumulativo de IBS/CBS por parte da empresa contratante, e não mais da simples não incidência de ICMS.
Conclusão
Os números do setor de faturamento bilionário a projeções de dobra no volume de PCaaS, mostram que a locação de equipamentos de TI deixou de ser uma alternativa de nicho para se tornar uma decisão estratégica de gestão financeira e tecnológica.
Some-se a isso o embasamento acadêmico sobre os benefícios do leasing operacional e o momento de transição tributária, e o quadro que se forma é o de um mercado em consolidação, ainda com bastante espaço para crescer entre as empresas brasileiras.
Fontes consultadas
- KPMG / Analoc — Rental Market Report 2025 Brasil, citado por Monitor Mercantil e Jornal O Regional (mar. 2026)
- IDC Brasil — projeções de investimento em TI e PCaaS, citadas por Terra Notícias e Criativa Online (abr. 2025)
- IDC Brasil — dados sobre adoção de locação de equipamentos, citados por Decision Report e Sing Comunicação
- Relatório de analista da IDC patrocinado pela CSI Leasing — Da propriedade à otimização: por que o gasto em leasing de TI está em crescimento (ago. 2025)
- Estudo de caso acadêmico sobre aplicabilidade do leasing empresarial — Unisalesiano Araçatuba
- Lei Complementar nº 214/2025 e Emenda Constitucional nº 132/2023 (Reforma Tributária)